São quase dizeres, quase versos, quase algo que valha a pena.

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Horror

Eu te amo bem mais do que te amo.
É mais que eu já pude antes te dizer.
Afasto tua mão em desengano:
Não me afagues no meu enlouquecer.

É no meu íntimo que tuas vísceras dirão:
"Nós te amamos, agora nos dilaceras!"
É do teu sangue que sofrerei a transformação
Em horror de muito mais do que mil feras!

Eu sou demônio e corpo, monstro e dentes,
Monstro faminto de teu ódio e tua doçura.
O seu medo me excita, entrementes...
Quero pedaços da tua pele, tua alvura!

Abro escaras nas tuas costas com minhas garras
Torno em lânguidas cortinas tuas vestes.
Linda princesa que se debate em amarras,
Pobre mendiga que suplica que me queres.

É preciso que eu de amante vire sádico
Para doer-me todo o amor que me procura.
Hei de sentir de forma humana, verdadeira,
Quando não mais cindir-me em homem e loucura.

quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Silêncio

Desperta, homem, o sol se enfurna devagar na brecha entre as cortinas. Fala que o teu coração amargou e secou e morreu e inexistiu, e a tua vontade de partir era maior que qualquer outra. Fala das tuas despedidas, dos olhos marejados e dos copos sempre cheios, das garrafas sempre vazias, das noites e dias ébrios.

Fala que engordou, que fez anos, que permaneceu. Comenta que despontaram um ou outro fio branco, fala que o calor voltou e o calar se move, se torna, se muda.

Fala da pobre vítima. Do coitado. Do errôneo, do iletrado. Do lamentar, do esgar, do negar. Fala do não, que a todas as coisas te negaste.

Fala que quase morreste. Quase partiste. Quase calaste tuas quase tentativas de ainda sobreviver. Tuas quase frases, palavras... teus quase versos.

Dá bom dia, homem. Há muito que viver.